Como já disse aqui no blog, eu vivi no Canadá entre os 5 e 13 anos, e foi lá que detectaram a minha deficiência auditiva (sei que há quem não concorde com a palavra “deficiente”... mas é mesmo isso que tenho, porque afinal o meu ouvido não é “normal” - espera aí... eu escrevo normal entre aspas porque penso que não existe nada normal, é muito relativo.. e só com isto posso dar alguma razão a quem não concorde com a palavra deficiente, tal como eu não acredito na palavra normal.. não existe nada normal, como também não existe nada perfeito. Mas vá, já estou a sair do assunto..).
Antes dos 5 anos mal falava, porque ouvia mal, e não sabia como falar.
Quando comecei a usar aparelhos auditivos, com 5 anos, comecei a aprender inglês.
Não estava sempre na mesma casa, portanto, os primeiros anos frequentei escolas diferentes. Estas primeiras escolas frequentava com pessoas diferentes que eu, ouvintes. No entanto tinha aula de apoio para não ficar tão atrasada em relação aos outros.
Não me lembro muito bem como era. Lembro da sala de aula barulhenta, cheia de miúdos activos a andar um lado para o outro. Eu era uma miúda calma, tímida, caladinha, sempre a observar os outros, tentado perceber, e ao mesmo tempo sonhar com que eu não percebia.
Na 3º ano, fui para uma escola diferente. Longe de casa, mas tinha sempre o autocarro (aqueles amarelos que aparecem nos filmes, estão a ver?) para me ir buscar a casa e levar a casa, independentemente da distância que era.
Eu chorei quando a minha mãe me disse que ia mudar de escola, porque (se calhar) estava a gostar de estar onde estava na altura.
Era uma escola igual às outras, com a única diferença de ter apenas DUAS turmas frequentadas por pessoas que ouviam mal. E eu ia para uma delas.
Destas turmas, cada uma tinha no máximo 10 alunos (e 10 já é muito, o melhor seria paí 7, mais ou menos).
Cada turma tinha no mínimo dois professores, sim DOIS!
A sala de aula era diferente que as outras. Tinha tapete para o espaço ser mais silencioso. Era tudo a pensar em pessoas que ouviam mal (quanto mais silencioso é uma sala de aula mais concentrado ficamos, certo? E como nós temos que estar ainda mais concentrados para apanhar tudo.. é cansativo.. ficamos mais cansados, mais vale a pena o esforço.)
Claro que há alunos e alunos.
Um aluno ouvinte pode perceber tanto como um aluno surdo.. basta o surdo estar concentrado o suficiente, o ouvinte estar a olhar para o nada, distraído.
Fazia-se tudo naquela sala. As professoras ensinavam tudo.
Os meus colegas ouviam tanto, ou melhor, ou pior que eu.
Todos falavamos oralmente em inglês.
Não chegamos a aprender Língua gestual. E acho que foi pelo facto de não precisarmos.
Confesso que gostava de saber mais do que sei. Mas ainda vou a tempo para aprender. Penso que é mais uma valia para mim. O saber não ocupa lugar!
Havia colegas que falavam piores que eu. Mas falavam.
Eu lembro de ouvir frases mal feitas. Frases que a mim não faziam sentido, mas percebia-as.
(fico então a pensar, se uma pessoa está à volta de pessoas que são 'piores' que elas, será que evoluem mais devagar? Não seria melhor ter colegas melhor que nós para podermos aprender mais? Eu acho que sim. A minha mãe até me dizia isso muitas vezes.. agora é que me estou a lembrar que não foi ela que decidiu em meter-me numa escola diferente, foi talvez o médico? É capaz.)
Uma pessoa no meio de pessoas que falam mal, acaba por falar mal também, penso eu.
Se eu ler livros mal escritos, vou pensar que é tal maneira que se deve escrever e depois sou eu escrevo mal.
Se não houver ninguém que nos diz que está mal, como é que sabemos que está mal?
Pode estar mal para uns, e bem para outros. Está bem, mas há casos e casos.
Hoje em dia até digo palavras e frases mal feitas. Verbos trocados e afins.
Se ninguém me corrigir como melhoro?
Ainda não me esqueci quando me disseram que estava a dizer mal a palavra "distinguir", dizia mal o "G".
E então quando eu dizia "algueres"? LOL. Nem sequer existe, é "algures". Eu sabia lá. E foi preciso alguém me dizer que não existe, e corrigir-me para eu saber!
Porque é a tal coisa, se eu digo alguma coisa é porque penso que existe e está bem.. porque não sou daquelas pessoas que vão dizer cenas que acham que está bem.
A maior parte das pessoas não corrigem. Se calhar é porque a maior parte das pessoas não gostam de ser corrigidas.
Eu gosto que me corrigem!
Voltando atrás...
Eramos todos de nacionalidades diferentes :)
Uma portuguesa (eu), um chinês, um do Vietname, uma de Jamaica, uma indiana, uma da Holanda.. já não me lembro do resto.
Chegou uma certa altura que eu (e mais um colega) era muito boa em matemática, boa em comparação com os outros colegas. Se estava com eles a aprender matemática, a mim era muito fácil e banal.
Então, comecei a frequentar as aulas de matemática em conjunto com as pessoas ouvintes :)
Sempre gostei de matemática.
Na turma dos ouvintes, em matemática, eu já não era assim tão “boa” (a comparar com eles, claro).
Ficava sempre na primeira fila.
A usar sempre o FM.
As minhas notas estavam sempre dentro da média. Uma boa média.
Acho que se a escola fosse apenas para surdos, eu não evoluía assim tão bem..
Penso que o facto de estarmos “misturados” é muito bom para os dois.
Para eles, porque ficam a conhecer que existem pessoas como nós.
Para nós, porque afinal das contas há mais ouvintes que surdos, e convém estarmos à vontade com pessoas ouvintes e socializarmos com todos.
Estive nesta escola até ao 7º ano.
Só porque voltei para Portugal.
Chorei e chorei.. não queria sair de lá.. tal como eu agora não quero sair de cá .. é sempre a mesma coisa :)
Do 8º ano ao 12º frequentei a mesma escola cá em Portugal.
Fui para a turma que tinha menos alunos (que era considerada a pior turma, bahh).
Estava sempre na primeira fila.
Sempre atenta.
Falava muito mal português.
Os colegas foram compreensivos (claro que fui gozada, quem não foi?), mas eu sempre levei quase tudo na boa, tudo na brincadeira como também a sério.
Fui magoada vezes sem conta.
Até que conheci um grupo de amigos civilizados.
Sempre tive apoio de Português.
Era duas vezes por semana uma hora com o professor.
Aprendi muito graças a estas curtas horas.
Aprende-se sempre melhor sozinha e com um professor, do que um professor e um conjunto de pessoas.
Quando tinha dúvidas, tirava-as (enquanto na sala de aulas não as tirava, desenrascava-me).
Na faculdade foi tudo "normal".
Só no último ano é que souberam que eu ouvia mal.
O que vale é que durante a minha vida, só tive que repetir um ano da faculdade (e isto só porque baldava-me muito..).
A minha mãe diz que graças à leitura eu sei o que sei hoje, porque já pequena gostava de ler muito :)
Mas também, para quê ver os desenhos animados (que era a primeira coisa que o meu irmão mais novo ia ver de manhãzinha), se eu não percebia nadinha?! É difícil ler os lábios deles, lol.
Penso que qualquer pessoa, surda ou ouvinte, que queira aprender, pode.
É só esforçar e fazer por isso.
Temos que acreditar que conseguimos.
Tudo é possível.
Independente dos sons que ouvimos.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
A minha educação
terça-feira, 14 de outubro de 2008
CV
Ando a fazer pesquisas na net, enviando o meu CV por e-mail para onde parece-me interessante.
No meu CV tenho lá escrito que tenho problemas de audição.
Antes de o ter escrito, quando estava acabar o curso, pedi opiniões a algumas pessoas sobre o que achavam em eu indicar no meu CV que oiço mal.
Apesar de à primeira vista não se notar o meu problema, decidi colocar no CV. Porquê?
Porque não sou exactamente igual aos ouvintes. Não atendo chamadas, por exemplo. Preciso de estar mais atenta em reuniões, de ler os lábios, etc. Sou diferente que o “normal”.
E se houver um emprego em que é preciso alguém que ouve bem, então eu e a entidade deixaríamos de perder tempo porque ambos sabemos que eu não estaria apta para a função. Ponto final.
Depois, o CV está sincero assim. Diz o meu problema, e eu não tenho problemas em dizê-lo. Faz parte de mim.
Há também empresas que beneficiem ao empregar pessoas como eu. Não sei muito bem como isto funciona, mas já ouvi falar.
À pouco tempo uma senhora respondeu à minha candidatura numa empresa, por e-mail.
Quando esta soube que eu não falava ao telefone por causa do meu problema disse assim num mail:
“...Como referiu que tem problemas de audição, está em condições para manter uma conversa durante a entrevista?...”
Fiquei PARVÍSSIMA!!!!! Mas que raio de pergunta????!!!!!
Condições?!! É que a pergunta não faz-me sentido NENHUM!!!!!!! Grrrrrrrrrr
Foi a primeira vez que aconteceu algo do género... será que foi a maneira dela de despachar-me?
Enfim! Há aí montes de oferta, o que me ofendeu foi apenas a pergunta..
O meu problema é sensorial, é físico da parte do ouvido; não sou retardada, não me falta inteligência!!!!!!!!!!!
Já lerem o meu CV e ficaram impressionados “...diz-me uma coisa.. tu ouves mal... como é que conseguiste saber tocar trompete e piano?”.
As pessoas ouvem “sou surda”, e ficam logo a pensar que sou completamente surda, que nada oiço. Mas não é assim!
Há montes tipos de surdez, de ligeira a profunda. E entre destas as suas variáveis.
Por acaso, quando eu aprendi tocar piano e trompete, ouvia com as próteses auditivas.
Mas agora é preciso ouvir muita bem para saber tocar um instrumento???
Quando é só preciso saber/poder soprar, ou ter mãos (ou pés.. qualquer coisa que possa tocar um piano)?
É preciso ouvir para saber/poder falar? Nem por isso! Conheço uma professora que é surda profunda, nem sequer tem os ouvidos completos, e nada há a fazer para ela poder ouvir bem, ou alguma coisa. E no entanto, como na altura a LGP era proibido, ela sabe falar! Não fala tão bem, mas percebe-se e consegue ter uma conversa “normal”!
Eu fico fascinada. Pois, é que eu também não sabia que podia-se aprender a falar sem ouvir nadinha toda a vida.
Quando digo que sei ler os lábios, há muita gente que diz que é muito difícil, e tal.
Para mim não foi nada difícil, porque foi e é uma necessidade minha para entender as pessoas. Aprendi sozinha, com o tempo.
Quando a gente precisa/necessita de algo, conseguimos ter.
Há certos sons que eu oiço, vou perguntar ao pessoal o que é. E só passado um bocado de tempo é que dizem o que é. Porque devem estar a tentar ouvir... ouvem bem, mas para eles já é algo que se escapa por ser algo que não lhes interessa.
A mesma cena se passa com tudo na vida.
Tudo está ao nossa alcance, e mesmo assim a gente não “vê”, não “ouve”, não “sente”, não “percebe”...